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Primeiro capítulo

Introdução

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Introdução

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Introdução

Quem sou eu? Bom, basicamente um ninguém. Nasci no meio do nada — para ser mais específico — e meu nome é nada menos que Veter Foxsale. Só mais uma pessoa entre tantas que vagam por aí. Faço as mesmas merdas que qualquer um faz todos os dias, e minha rotina é sempre a mesma: trabalho, volto pra casa e repito o ciclo.

Trabalho como entregador numa empresinha de quinta do “amigo” do meu pai. Não é grande coisa, mas paga o mínimo para sobreviver.

O melhor da minha vida acontece quando estou sonhando. Lá eu não me preocupo com nada, e as fantasias me levam para qualquer lugar... geralmente para o boteco da esquina as vezes. E antes que me chame de cachaceiro, não é bem assim: só bebo de vez em quando, para afogar as mágoas.

Mas não demora muito até o despertador tocar. — E esse sou eu, acordando. — Levanto cedo, arrastando um corpo que parece mais de defunto do que de gente. Minha rotina começa sempre às sete em ponto. Tomo café — não feito por mim, claro. A tecnologia do nosso planeta é avançada, quase aterrorizante. Se você tem dinheiro, as máquinas te servem até na cama. — Mas não é o meu caso, infelizmente. — Não tenho grana pra nada, mas pelo menos um café automático eu consigo pagar. Pequeno luxo em meio à miséria.

Depois do café, banho e escovar os dentes. Nada de especial, mas ao menos o banho me dá um falso senso de ânimo. Meu apartamento é pequeno, mas para alguém que vive sozinho é perfeito. Quase dá pra se sentir rei... se reis vivessem em caixinhas de concreto.

As paredes ao lado da minha cama são cobertas por adesivos de estrelas. Sempre fui fascinado pelo espaço. Queria ser astrônomo, explorar os mistérios do universo. Mas, se você é pobre, aprende rápido que não vive do que sonha. Vive do que a vida permite. Em Belonia não existe escolha, só sobrevivência.

O planeta se chama Graner, mas todo mundo apelidou de “Grana”. Não é difícil entender o porquê: ou você é rico, ou vive sustentando a pirâmide social dos poderosos. E eu, como todo pobre miserável, estou aqui para servi-los.

Naquele dia, eu mal podia esperar para ouvir o ronco do meu carro. Meu possante — enferrujado, velho, quase uma sucata ambulante. Não era o carro dos meus sonhos, mas dentro das minhas condições era o melhor que eu poderia ter. Dirigindo para o trabalho, parecia até que estava indo procurar emprego, não manter um.

A cidade era gigantesca, mas engarrafamentos eram rotina. Sempre me pergunto: se os carros flutuam, por que ainda existem congestionamentos? Mas não adianta reclamar. Ou você espera, ou arrisca jogar o carro por cima dos outros. E antes que pergunte: não, isso não é permitido. Aqui também existem regras, como o limite de altura nas vias aéreas.

No fim, sobra apenas o rádio. Liguei, encostei o cotovelo na janela como um marmanjo descolado e esperei o tempo passar.

“Hoje é o dia da revolução científica em Belonia. Uma fórmula capaz de regenerar qualquer ferimento pode virar realidade ainda hoje. Desenvolvida pelos cientistas da empresa Dexter, a descoberta promete mudar vidas. O senado central de Belonia votará em breve a aprovação para iniciar os testes.”

Isso é o que eles dizem. Pra mim, não passa de mais uma enganação. Já vi essas experiências antes: trancam você numa jaula, liberam uma fumaça qualquer e esperam ver o que acontece. Duas pessoas já morreram assim; uma terceira ficou completamente pirada.

Pensando bem, isso nunca vai dar certo. No fim das contas, só mais uma fórmula perdida entre tantas de pesquisadores malucos que vivem de marketing.

Depois de longos minutos preso no congestionamento, finalmente cheguei ao trabalho. Estacionei meu Viere no mesmo lugar de sempre e desci apressado. Nunca chego no horário. E, quando chego, sempre é por sorte. Mas, dessa vez, a culpa não foi minha. O trânsito de Belonia pode ser sufocante.

— Veter, está atrasado de novo. — disse Jerry, meu amigo de quinta categoria.

— Tô, é? Você virou vidente ou consultou o “Manjar das Bolas de Ouro” hoje? — respondi, sarcástico. Não perdia uma oportunidade de alfinetar, nem que fosse pra puxar o saco dele depois.

— Sempre você, cara... Como vai, chapa?

— Bem. — respondi seco.

Jerry era meu melhor amigo. Nos conhecemos no colégio e, desde então, ele tem sido meu porto seguro nessa vida maluca. Especialmente nesse emprego — devo isso a ele. Digamos que eu nunca fui bom em procurar trabalho, pra ser mais exato.

— Veter? Achei que não viria hoje. — gritou Tulle, o chefe dessa empresa de quinta.

— Pois é, que azar, né? — rebati.

— Engraçadinho. Quero que faça essa entrega antes do meio-dia. O endereço tá no papel. E vê se não faz cagada como da última vez.

Tulle era meu patrão. Até que ele era um cara legal... antes de me pegar com a amante dele na boate da cidade. Nem sei por que não fui demitido. Pura sorte.

— Deixa comigo, Sr. Tulle. Sabe que eu vou voando. — falei, tentando segurar um sorriso.

Não sou uma pessoa extrovertida, mas não perco chance de fazer piada — mesmo nas horas mais impróprias. Peguei a papelada e fui para o caminhão de entregas. Estava começando o dia com o pé esquerdo, mas isso já não fazia diferença.

— Veter. — Jerry me chamou mais sério. Virei o rosto quando ele completou: — Quer ir pra balada hoje? Vai ter um monte de gatas e um DJ novo. Dizem que é um dos melhores da cidade. Você vai curtir!

— Não sei, cara. Não tô afim. Você sabe o que aconteceu da última vez... Além disso, tenho que estudar pra faculdade.

— Esquece isso, cara. Passado é passado. Agora é vida nova. Então? O que me diz? — ele insistiu. Fiquei pensativo. No fundo, era só uma baladinha. Que mal poderia acontecer?

— Tá bem, vou pensar. Preciso fazer essa entrega primeiro e depois a gente conversa. — respondi, afirmando e negando ao mesmo tempo. Não sou muito baladeiro, mas, como disse antes, não perco uma.

— Ei, Veter, vai levar essa carga ou vou ter que mexer no seu salário! — a voz do Tulle ecoou ao fundo, me puxando de volta pra realidade.

— Calma, já tô indo! — falei, subindo no caminhão. Sou assim, meio distraído, mas faço o que tem que ser feito. É complicado de entender, mas você entende. Minha vida se resume a isso: pegar a bendita carga e entregar para o bendito cliente. Às vezes longe, às vezes perto. Mas, não importa qual o caminho, você sempre chega.

Na vida estressante dessa cidade, não é fácil manter a calma. Buzinas daqui, buzinas dali, sempre um vagabundo te xingando. Eu, geralmente, não ligo. A menos que envolva o nome da minha mãe — aí eu abro uma exceção.

Nem sempre é fácil encontrar o local da entrega. Belonia é um labirinto de ruas e becos, e algumas eu nem sei como achar. Mas, no fim, você precisa cumprir o objetivo: entregar. Caso contrário, descontam na miséria do seu salário.

Estava quase chegando quando vi uma casinha no fundo. Não parecia ser o ponto certo, mas o número batia.

Estacionei o caminhão — ou “ambulante”, como eu chamava — e desci. Antes, dei uma buzinada de respeito. Peguei a prancheta no porta-luvas e fui até a porta. Quando ela se abriu, soltei o verbo:

— Entrega 6715... Oi?...

— Você? Aqui? — a moça disse surpresa. Quando levantei os olhos, reconheci. Kellen. Minha ex-namorada.

— É... Bom... Não precisa tocar naquele assunto de novo. — falei, abaixando a cabeça. — Tô só cumprindo meu trabalho.

— Tudo bem. — ela respondeu, calma. — Quer entrar? Tomar uma água, um café, alguma coisa?

Ela parecia formidável, apesar das nossas desavenças. O importante era que estava estável — como uma bomba atômica recém-neutralizada.

— Não, obrigado. Você se mudou pra cá?

— Gostou? Não faz muito tempo. A mudança foi rápida, precisava de espaço. — completou. Eu já estava ficando sem jeito. Nunca entendi por que ela terminou comigo. Aquela noite eu estava bêbado e acabei beijando outra — que nem conhecia. Admito: não levo jeito com mulheres.

— Aqui está sua entrega. — falei, direto, entregando a prancheta para ela assinar. Ela só se calou, assinou e pegou o pacote.

— Aqui está, 12,60. — disse, entregando o dinheiro. Não sei se era frieza ou amnésia de curta duração.

— Valeu. Bom, tenho que ir. Mais entregas pra fazer. — respondi.

Eu não podia dizer o quanto a amava. Mas sabia que o silêncio era a melhor escolha. Mesmo assim, havia algo que eu precisava falar — e eu tinha certeza que ia me arrepender disso pelas próximas seis horas.

— Kellen! — chamei. Ela se virou. — Jerry me convidou pra ir à balada. Eu estava pensando... Quer ir comigo? Sei lá, a gente se concilia de novo?

— Adoraria, Veter. — ela disse, direta e imprevisível, jogando todos os meus pensamentos pelos ares. Isso foi mais fácil do que eu esperava.

— Isso é um “sim”? — perguntei, desconfiado.

— Sim. Pode ter certeza. — respondeu, com um sorriso nos lábios. Mas, por dentro, algo gritava: “É uma cilada!” Eu, no entanto, pouco me importava com a lógica. Talvez fosse só um “sim”. Mas, no fundo, eu sentia algo maior.

— Tá bem. — falei, com cara de bobo. — Te pego às 18h, pode ser?

— Não. — ela respondeu. — Só me encontra lá. Pode ser assim?

— Pode. — confirmei. — Na balada da Dekca. Às 18h.

— Tudo bem. — sorriu, cruzando os braços.

E eu? Bom, naquele momento eu já não fazia parte dessa dimensão. Tudo o que eu queria era sair correndo, pular no caminhão e gritar feito um catador de lixo. Sem desmerecer essa profissão — aqui em Belonia, eles são as pessoas mais alegres que conheço. E era assim que eu me sentia: alegre.

Mas, no fim, só me virei, subi lentamente no caminhão e dei partida. Acenei da janela com um tchauzinho. Segui com o semblante mais feliz do mundo, com um motivo a mais para continuar vivendo nessa vida miserável. Mas, no fundo, minha consciência me condenava pela cagada que eu tinha acabado de fazer.