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Um estranho na Terra

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Um estranho na Terra

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Estrada BR-428, às 0:29 da noite

Beyoncé não estava mais ouvindo a música. Há quanto tempo? Não sabia. O rádio tocava alguma coisa, o asfalto passava por baixo, e ela estava em outro lugar qualquer dentro da própria cabeça.

A BR-428 de madrugada é desse jeito. Reta demais pra manter a atenção, escura demais pra ter onde pousar o olho. De vez em quando um mandacaru, uma placa de fazenda que não leva a lugar nenhum. À esquerda, longe, Petrolina jogava um laranja sujo no horizonte. Do lado direito era só mata e sereno.

O tranco veio sem avisar.

O motor engasgou — não foi um barulho bonito, foi aquele som de coisa quebrando por dentro, seco. O rádio pirou junto, a música virou uma estática de um segundo pro outro. Beyoncé olhou pro painel como se ele fosse explicar alguma coisa.

Não explicou.

— Droga.

O carro morreu. Deslizou até o acostamento por inércia e ficou parado. Ela ficou olhando pra frente, pro cone de luz dos faróis iluminando asfalto vazio, esperando não sabia o quê.

Aí veio a luz.

Clarão não é a palavra certa. Clarão você pisca e passou. Aquilo ficou — desceu pelo céu pulsando, branco demais, e Beyoncé cobriu o rosto com o braço porque doía nos olhos de verdade, físico mesmo. Entrou no mato do lado direito com um barulho abafado que ela sentiu na barriga antes de ouvir pelos ouvidos. O chão tremeu uma vez e parou.

Silêncio.

Ela girou a chave. O motor foi teimoso, mas pegou. Guiou até lá, estacionou, ficou com a mão na maçaneta por um tempo que não soube medir.

Saiu.

O cheiro chegou primeiro — fumaça, terra queimada, aquele cheiro de coisa que não devia estar pegando fogo. O mato estava chamuscado, galhos curvados pra fora como se tivessem se afastado correndo. Ela foi andando sem pensar muito, porque se pensasse não ia.

O buraco era do tamanho de uma sala.

Beyoncé ficou na beira e o estômago apertou de um jeito que não tinha nome certo. Lá no fundo, na poeira e na fumaça que ainda subia devagar, tinha uma pessoa.

Um rapaz. Quieto. Quieto demais.

Ela deu um passo pra trás. Tinha tudo pra virar e ir embora — o carro tava lá, a BR tava lá, Petrolina ficava a menos de uma hora. Mas o corpo não obedeceu na hora de ir. Não foi coragem. Foi outra coisa, que ela não parou pra nomear.

Desceu.

A pele dele era clara de um jeito que parecia errado pra aquela luz, pra aquele lugar. E tinha marcas — listras escuras pela pele, simétricas demais pra serem queimaduras, diferentes demais pra serem tatuagem.

Ela ficou olhando.

— De onde… de onde você veio?


No entardecer

Capítulo 2

Beyoncé tinha dobrado a mesma camiseta três vezes.

Não porque estava errada — era a de sempre, a verde desbotada que seu pai odiava — mas porque dobrar dava o quê fazer enquanto o tempo não passava. O ônibus só saía às seis e meia, ela não ia de ônibus, mas o hábito de contar horário tinha ficado. 17h43. 17h44.

A mala estava quase pronta em cima da cama. Roupa leve, sandália reserva, o carregador que ela sempre esquecia e dessa vez não ia esquecer, o livro que ela carregava faz meses sem ler. Os óculos escuros em cima de tudo, como se fosse o item mais importante.

Ela se olhou no espelho de corpo inteiro — aquele que o pai tinha pregado torto na porta do guarda-roupa e nunca endireitou. Ajeitou o cabelo com a mão. Achou que estava boa. Achou que estava indo embora.

Do corredor veio o barulho de passos pesados e ela já sabia o que vinha junto.

— Beyoncé.

Ela não respondeu de imediato. Pegou a necessaire, colocou na mala.

— Você tem certeza disso?

— Já falamos sobre isso, pai.

Ele apareceu no batente com os braços cruzados. Tinha aquela expressão que ele achava que era de autoridade mas que ela conhecia melhor — era preocupação vestida de brava, a mesma desde que ela tinha oito anos e queria atravessar a rua sozinha.

— Você devia tá estudando. Prova não tá longe.

— Prova tá em três semanas.

— E você vai desperdiçar três semanas rodando por aí?

— Três dias, pai. Três dias. — ela fechou a mala com um zíper definitivo. — E não é desperdiçar. É respirar. Que é diferente.

— Respirar você faz aqui em casa.

Ela virou pra ele com aquele sorriso que ele também conhecia bem — o que queria dizer você sabe que não vai ganhar isso.

— Não é a mesma coisa.

Ele ficou parado no batente. Não tinha mais argumento mas também não ia sair, era assim. Ela pegou a bolsa, passou por ele, e deu um beijo rápido no rosto que precisava de barbeador.

— Você é ousada demais, menina.

— Obrigada. — ela já estava descendo a escada.

— Não foi elogio.

— Eu sei, pai.

O portão bateu atrás dela mais alto do que ela queria. O sol estava quase no horizonte, daquele laranja que dura dez minutos e some. Ela colocou a mala no porta-malas, entrou, ajeitou o espelho, e ficou parada por um segundo com as mãos no volante sem ligar o carro.

Respirou.

Ligou.

O mercadinho ficava a quatro quarteirões. Ela conhecia desde criança — o mesmo letreiro torto, o mesmo cheiro de frango temperado vindo da fila de congelados. Parou o carro na frente, colocou os fones, foi entrando já pensando no que precisava: água, alguma coisa doce, talvez uma daquelas barras de cereal que ela nunca comprava porque odiava o gosto mas que resolvia o problema.

Pegou tudo meio no piloto automático, a música no fone cobrindo o barulho do mercado. Saiu pela porta automática.

— Ei!

Ela não parou de imediato porque achava que era com outra pessoa.

— Ei, moça! Vai sair sem pagar?

Ela tirou um fone. O caixa estava olhando pra ela do outro lado da catraca.

— Ah não. Não foi de propósito — ela disse, já voltando. — Juro, eu tava no fone, eu... eu.

— Claro que não foi. — ele disse de um jeito que claramente queria dizer claro que foi.

O constrangimento era físico — ela sentiu no pescoço. Colocou tudo na esteira sem conseguir olhar pra ninguém direito. Uma das atendentes disse alguma coisa em voz baixa pra outra e as duas riram, não do jeito de achar graça. Beyoncé passou o cartão, pegou as coisas, e saiu mantendo o passo firme até o carro porque correr seria pior.

Jogou a sacola no banco do passageiro.

— Tá ótimo. Excelente começo.

O celular vibrou antes de ela ligar o carro.

Roger.

Ela olhou pro nome por um segundo. Deixou. Vibrou de novo. Ela olhou pro teto. Vibrou mais uma vez e ela atendeu com a energia de quem está fazendo um favor enorme.

— O que foi?

— Que bom que atendeu. — a voz dele tinha aquela ironia que precisava de preparo, que ele treinava. — Achei que você tinha bloqueado.

— Não tinha.

— Então por que demorou tanto?

— Roger. — ela ligou o carro. — O que você quer?

— Quero saber por que você simplesmente sumiu sem...

— Não sumí. — Ela respondeu, cortando. — Te mandei mensagem.

— Uma mensagem. Uma, Beyoncé. "Vou viajar, a gente se fala." É isso que você chama de conversa?

Ela saiu do estacionamento olhando pros dois lados.

— É o que eu tinha pra falar.

A discussão foi subindo, aquele jeito específico que eles tinham de escalar — rápido, eficiente, os dois sabendo exatamente qual ponto apertar. Ela atravessou o sinal, virou à direita, e o carro apareceu do nada vindo da esquerda.

Ela freou. O carro deu um soluço. O outro motorista buzinou longo e raivoso e foi embora.

O coração foi pro pescoço.

— Você tá bem? — a voz do Roger saiu diferente por um segundo, sem a ironia.

— Tô. — ela respirou. — Mas precisa parar aqui.

— Beyoncé...

— Tô dirigindo, Roger. A gente fala depois.

Ela desligou. Ficou parada no meio da rua por um momento até o carro atrás buzinar. Acelerou.

A estrada foi abrindo devagar — primeiro os semáforos espaçando, depois as casas espaçando, depois nada dos dois lados. O céu foi virando roxo, depois aquele azul que antecede o escuro de vez, e as primeiras estrelas foram aparecendo sem cerimônia, uma e depois várias.

Beyoncé havia ligado o rádio, mas o sinal foi sumindo conforme ela entrava pelo sertão. Ficou na estática por um tempo sem mudar porque dar atenção a isso era admitir que estava a quilômetros de qualquer coisa. Cantarolava às vezes, sem perceber. De vez em quando um caminhão aparecia na direção contrária — a luz explodindo por um segundo, o vento sacudindo o carro — e depois o breu voltava como se nada tivesse acontecido.

O ponteiro do combustível estava perigosamente perto do fim. Ela viu o letreiro do posto de longe — aquele tipo de letreiro de posto de estrada que pisca sem ritmo como se estivesse em dúvida sobre si mesmo. Saiu da pista, estacionou na bomba, e quando desceu do carro o ar da noite chegou num choque: fresco, com cheiro de terra e de óleo e de algo que parecia carne assada vindo de algum lugar que ela não conseguiu identificar.

Esticou as costas. Ficou um segundo parada olhando pro céu — de cidade ela esquecia que existia essa quantidade de estrela.

O frentista veio sem pressa, sonolento do jeito que qualquer pessoa estaria às dez da noite num posto de sertão.

— Completa?

— Completa. — ela entregou a nota amassada que ficava no bolso da calça desde não sabia quando.

Entrou na loja enquanto esperava. Tinha aquele cheiro específico de loja de posto — café velho, salgadinho, limpador de piso. Pegou uma água, ficou na dúvida entre o salgadinho de frango e o de queijo, pegou os dois porque eram baratos e porque podia. Havia um casal de idosos numa mesinha com dois copos de café, quietinhos. Dois caminhoneiros de costas discutindo placar de jogo. Uma criança de uns cinco anos dormindo atravessada numa cadeira com a cabeça no colo da mãe, a boca semiaberta.

— Tá indo pra onde?

Ela virou. Um rapaz apoiado no balcão, uns vinte e poucos anos, camiseta do Náutico passada no braço direito.

— Petrolina.

Ele acenou com a cabeça como se confirmasse algo que já sabia.

— Então vai querer conhecer o Bodódromo.

— Com certeza. — ela disse, automático.

Ele esperou.

— Você não sabe o que é o Bodódromo.

Ela ia segurar. Não segurou.

— Não faço ideia.

— Pensei. — ele não gozou, disse como quem constata. — É o lugar de bode assado mais famoso da região. Mas você provavelmente não come bode.

— Como você sabe?

— Chute.

— Errou. — ela mentiu.

Ele inclinou a cabeça, divertido.

— E fora o bode? O que uma moça vai buscar em Petrolina a essa hora da noite?

— Coisa nova. — ela ergueu os salgadinhos como se fossem evidência. — Esse tipo.

— Petrolina tem coisa nova. Tem o São Francisco, tem o Bodódromo que você não sabia que existia...

— Que eu já sei que existe agora.

— Faz dois minutos. — ele cruzou os braços, sorrindo. — Se precisar de guia, é só falar. Conheço cada canto.

— Vou anotar. — ela foi pro caixa. — Obrigada, senhor guia turístico.

— Boa viagem.

Ela pagou, saiu, acenou pro frentista que estava terminando. De volta ao carro, jogou os salgadinhos no banco do passageiro e ficou um segundo antes de ligar — ouvindo o silêncio do posto, o zumbido das lâmpadas de led, o grilo lá longe em algum lugar.

22h00 no painel.

Entrou na estrada.

Os faróis abriam um corredor estreito no escuro, e além deles não havia nada visível — só a linha branca do acostamento e a mata fechada dos dois lados. Beyoncé apertou o volante, não de tensão, mas daquele jeito de quem precisa de algo concreto na mão.

Lá na frente, alguma coisa.