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Um dia de cada vez
Versão acessível do mesmo capítulo apresentado no leitor acima.Um dia de cada vez
Capítulo 1
Assim como todas as manhãs, o sol nasce no oeste. Na cidade onde vivo, poucos têm o privilégio de dormir até o amanhecer. O trabalho começa antes mesmo do sol aparecer — e, ainda assim, todo esforço parece pouco diante do perigo lá fora.
A maioria das pessoas é designada para exercer suas funções específicas: temos os construtores, os agricultores, os médicos, os engenheiros. Todos são obrigados a desempenhar seu papel para manter a cidade de pé.
Os cidadelas são os responsáveis por cuidar da fronteira da cidade. São eles que vigiam o perímetro e defendem contra as ameaças iminentes que possam vir de além das muralhas. Cerca de 60 mil pessoas vivem em Braen, mas esse número tende a diminuir. Com a vinda dos monstros — ou deles — os índices de doenças aumentaram.
Uma das mais perigosas é o TOE-124, um vírus que ataca o sistema nervoso da vítima e a mata em questão de semanas. Extremamente contagioso. Alguns são imunes, outros não. Como em toda cadeia biológica, não podemos evitá-lo por completo. Tudo o que nos resta é isolar, em quarentena, aqueles que foram contaminados.
Além das doenças, enfrentamos um problema ainda mais grave: a escassez de água. Ela começou quando nossas fontes já não eram próprias para consumo. A água estava contaminada por diversos resíduos biológicos. Montamos um sistema de purificação que poderia limpá-la, mas não temos energia suficiente para mantê-la ligada o tempo todo. Então, só o ativamos em determinados horários do dia. Isso significa que não temos água limpa o tempo todo, e precisamos economizar cada gota que conseguimos.
A energia, de certa forma, ainda é uma das poucas vantagens que possuímos em Braen. Mesmo assim, é insuficiente. Nossa cidade sempre foi a que mais utilizava painéis solares como fonte de energia renovável, mas nunca imaginamos que um dia dependeríamos disso para sobreviver. A maior parte da energia gerada é direcionada às fronteiras, para manter os sistemas de segurança ativados e nos proteger deles. Em troca disso, o consumo dentro da cidade fica comprometido — e, como resultado, passamos boa parte das noites no escuro.
Poderia ser pior, se não fossem as minas de Azatek, de onde extraímos minérios para forjar nossas armas. As balas são reforçadas, projetadas especialmente para perfurar a pele daquelas coisas. Mas essas criaturas estão sempre se adaptando, e cedo ou tarde surgirá uma que não poderemos deter.
— O que você está escrevendo? — A voz era da minha mãe. Ela sempre tinha um zelo a mais comigo.
— É... Não é nada... mãe… — respondi em voz contida.
— Está de novo nesse diário? Você precisa descer, tomar o café da manhã. Ou já esqueceu do seu compromisso?
— Eu já vou indo, está bem?
Minha mãe às vezes era chata. Me cobrava demais. Mas fazia isso para o meu bem. Afinal, éramos apenas eu e ela nesse mundão limitado. Gostava de registrar tudo em meu diário, anotar qualquer bizarrice que acontecesse lá fora. Ao contrário do que muitos pensam, minha vida estava longe de ser abundante — e, nos dias de hoje, isso já nem faria diferença.
— Vamos, enxágue o seu rosto e se arrume — ela insistiu, direta, como fazia todos os dias, parada na porta do meu quarto. — E não se atrase.
Ela foi para a cozinha, e eu fiz o que mandou. No fim, eu sempre acabava obedecendo.
Fui ao banheiro, escovei os dentes e coloquei meu uniforme. Amarrei duas faixas nos antebraços, como sempre fazia desde pequena. Tinha essa mania — e não me pergunte por quê. Sempre que me olhava no espelho, lembrava da minha antiga mãe.
Adele não era minha mãe verdadeira. Ela praticamente me adotou, me criou e me deu um nome: Melindra Mayey. Me tratou como filha, e por isso devo tudo a ela.
— Melina, ande logo com isso, o tempo é curto! — a voz dela ecoou da cozinha, reverberando pelo corredor.
Antes que pergunte: Melina era como todos me chamavam. Um apelido. Fechei minhas coisas, peguei a mochila de trabalho e corri até a cozinha. Minha mãe já estava sentada à mesa. Sentei logo em seguida.
— Quer se atrasar hoje, mocinha? — puxou a conversa. Eu fiquei calada. — Sabe que Dúlio pode te colocar para trabalhar até tarde se isso acontecer.
— Eu não me importo — respondi, com a cara fechada.
— Como não se importa? Você sabe que eu me preocupo com você. Não quero te ver trabalhando até tarde, naquela galpão escuro.
— Não se preocupe, mãe. Já sou bem grandinha para me cuidar. Ou já esqueceu disso? — retruquei, fria. Apesar de adulta, ela queria me proteger o tempo todo, como se eu ainda fosse sua menininha de sempre.
— Eu sei, Melina. Mas as coisas na fortaleza têm sido tão difíceis… às vezes tenho medo de te perder — confessou, deixando escapar o que a afligia.
— Não se preocupe. As coisas vão melhorar daqui em diante — garanti, segurando sua mão sobre a mesa. — Pode ter certeza disso.
— Eu não sei… Igor me disse que teremos outro corte essa noite.
— Outro corte? — perguntei, assustada. — Já é o terceiro seguido!
— Sim. O mau tempo contribuiu. Os receptores não conseguiram armazenar energia suficiente. Então vão redirecionar o restante para as fronteiras.
O ar de preocupação dela pesava no ambiente. Mas até a mais forte das mulheres tinha seus medos.
— Isso vai prejudicar a estação de água? — perguntei. Pelo olhar dela, já entendia o tamanho do problema.
— Não posso te dizer. A estação é a única que ainda abastece. Sem ela, ficamos sem purificação. Se cortarem a energia, toda a fortaleza será prejudicada.
— Eles não vão fazer isso, mãe — disse, tentando consolá-la.
— E como podemos saber? — rebateu. — Temos que estar preparadas para o pior, minha filha.
Nunca disse que a vida aqui era fácil. Viver em um mundo cercado de monstros é o pior destino que alguém pode ter. Antes, eles habitavam apenas minha mente. Agora, estamos cercados por eles. E qualquer deslize pode ser fatal.
— Temos que ir — minha mãe se levantou, organizando as últimas coisas. Engoli o resto do pão e me preparei para mais uma batalha do dia.
— Não esqueça seu KIM — lembrou, antes de abrir a porta. O KIM era um rastreador portátil. Ela sempre me fazia levá-lo, para que, se eu me perdesse, pudesse ser encontrada.
— Está comigo — confirmei, pegando-o na cômoda. Em seguida, saímos. Ela sempre passava primeiro e trancava a porta por último.
— Espere, deixe me ver as trancas…
Minha mãe tinha essa obsessão por trancas. Sempre temia o pior: que nos roubassem. Como se não bastasse viver em um mundo cercado.
— Está bom. Vamos, senão perderemos o transporte — apressei, e logo a acompanhei.
A cidade parecia mais uma concentração humana. As casas se amontoavam, umas sobre as outras. Parecia uma favela, mas, dadas as condições, não era tão ruim. A cidade ainda estava mergulhada em sombras. Apenas o brilho das luzes das fronteiras em volta da cidade transmitia alguma sensação de segurança.
O céu estava avermelhado, coberto por nuvens de espectro arroxeado com tons azulados. Estranho, impossível de descrever. Muitas coisas haviam mudado em nosso mundo — às vezes dava até medo de pensar no que o planeta havia se tornado.
— Vamos, temos que descer as escadas…
Morávamos em um lugar alto. Todos os dias precisávamos descer aquelas enormes escadarias. Era apenas um aquecimento para o que viria pela frente. O transporte já estava no ponto. Corremos até chegar ao local.
— Senhorita Adele, se atrasou hoje… — disse Sr. Leon, o motorista do ônibus, assim que nos viu.
Minha mãe foi a primeira a entrar, e eu logo depois, dando uma olhadinha para trás, como sempre fazia todos os dias.
— Melina, vamos…
— Sr. Leon… — cumprimentei, e entrei. Sentei na segunda fileira, ao lado da minha mãe, junto à janela.
Não havia muitas pessoas no ônibus. Se pudesse contar, diria que havia, no máximo, doze.
— Cadê o restante? — sussurrei para minha mãe, mas foi Leon quem respondeu:
— Em quarentena.
— Hã?
— Parece que o vírus da AIKA se espalhou ainda mais. Os trabalhadores do setor laboratorial foram isolados.
— Como sabe disso? — minha mãe indagou.
— Sou motorista. Notícias circulam o tempo todo.
Fiquei pensativa. O vírus AIKA — ou TOE-124 — era o mais letal contra a nossa resistência. Não havia cura ou chance. Quem fosse infectado tinha apenas algumas semanas de vida. Um jeito ruim de morrer.
O ônibus não demorou a sair do ponto. Fiquei olhando pela janela, observando nossa cidade mergulhada em uma leve escuridão. A energia só voltaria durante o dia, para reabastecer as baterias das casas, antes de ser desligada novamente. Antes, mal ficávamos no escuro. Agora, a escuridão havia virado parte da rotina.
Rodamos um bom tempo pela estrada central. Passamos em frente ao único prédio de Braen: o parlamento. Eles eram os responsáveis por “gerenciar” as fronteiras e estudar o que existia além delas. Mas, na prática, eram apenas homens com caneta e papeis, se dizendo donos da verdade. Todos sabiam que quem realmente mandava eram os cidadelas. Eram eles que defendiam as fronteiras e nos protegiam do perigo iminente. O parlamento? Apenas os “mocinhos” que ditavam as regras.
Minha mãe sempre dizia que era loucura, mas eu sonhava em ver o que havia além das fronteiras. Uns diziam que existia uma floresta imensa e florida, escondendo feras terríveis. Outros afirmavam que só restava uma mata morta e escura, o que sobrou do planeta antes da chegada deles. A verdade? Só descobriria vendo com meus próprios olhos.
— Chegamos, Adele. Aqui é o seu ponto — informou Leon.
Minha mãe se levantou, me deu um beijo na testa e disse:
— Se cuida, querida.
— Não se preocupe comigo, mãe… agora vai… — respondi, com um sorriso contido.
Ela seguiu até a saída e, antes de descer, falou com Leon:
— Cuida bem dela, viu, Sr. Leon?
— Pode deixar, Adele. Não se preocupe — ele afirmou, tocando a ponta do boné. Sempre mostrando serviço. Como eu odiava isso nele.
Minha mãe desceu e seguiu direto para o trabalho. A porta se fechou, e seguimos viagem.
Me encostei na cadeira e fechei os olhos. Minha mãe trabalhava na estação de água. Não era o que queria. Seu sonho era estudar Biologia, ser bióloga, encontrar cura para as novas doenças. Mas aqui você é aquilo que te designam. Para ela, coube a estação de água. Ao menos tinha algumas vantagens: saber exatamente quando haveria ou faltaria abastecimento. Um trabalho digno, como qualquer outro. Às vezes, até eu queria estar em seu lugar… se não fosse pelas plantas imundas e fedorentas.
Nunca falei muito do meu trabalho. Eu era das hortaliças. Assim como minha mãe, não era o que eu queria. A verdade é que eu sonhava em ser uma cidadela. Mas, nos dias de hoje, nossas escolhas não fazem tanta diferença. — E o que fazemos lá? — Tecnicamente, plantamos. Mas não como fazendeiros. A vinda deles alterou completamente o ciclo da vida orgânica do planeta. Cultivos antes fáceis, agora não germinavam mais. Nosso trabalho era “separar o trigo do feijão”, metaforicamente falando. Calculávamos as estações, as sementes certas, para depois colhermos no tempo exato. Um simples erro poderia condenar centenas à fome, ou até levar ao fim da fortaleza. Os centros de hortaliças eram os únicos capazes de sustentar a cidade.
Por sorte, eu era apenas a garota que plantava.
— Melina, chegamos… — Leon me trouxe de volta à realidade.
Abri os olhos e vi o pôr do sol brotando no horizonte. Era o sinal de que meu dia estava começando. O ônibus parou. Olhei pela saída: estávamos diante da sede das hortaliças.
— É a sua vez agora — Leon sorriu. Peguei minha mochila e me levantei.
— Até mais ver, Sr. Leon… — me despedi.
— Mande um abraço para Dúlio.
— Pode deixar — completei com um sorriso.
Desci do ônibus e o vi partir, me deixando em frente àquela sede.
— Bom, e vamos nós novamente… — sussurrei, tentando aliviar a angústia de mais um dia exaustivo.
Segui até as enormes portas de vidro. O local parecia um galpão abandonado de tanta sujeira. Não podíamos limpar: a pouca água que restava tinha que ser guardada para futuras plantações.
Assim que abri a porta, entrei. Vi Marcelo logo na entrada, meu colega de trabalho. Ele estava parado, resolvendo algumas papeladas naquele balcão empoeirado.
— Estou atrasada? — quebrei o silêncio da sala.
— Melindra? Nem vi você chegando!
Marcelo era o único que me chamava pelo meu nome completo.
— É, mas cheguei… — completei, indo em sua direção.
— Como anda sua mãe? — perguntou, provavelmente se referindo à última briga que tivemos, não muito tempo atrás.
— Do mesmo jeito… protetora até demais.
— Jura? Queria ter uma mãe protetora como a sua.
— Me desculpe… — abaixei o olhar.
Marcelo havia perdido a mãe quando ainda era pequeno, justamente por causa do vírus AIKA. Segundo ele, ela era médica, e acabou infectada nos centros de concentração de enfermos.
— Se desculpar? Não tem do quê se…Bem, venha, Dúlio quer falar com a gente na sede. — Ele seguiu pelo corredor, e eu fui atrás.
O local onde trabalhávamos reunia desde faxineiros até renomados biólogos, além de equipes de várias outras áreas.
— Ficou sabendo? — Marcelo quebrou o silêncio, me deixando apreensiva.
— Sabendo o quê?
— Vai faltar água de novo. Já é o terceiro dia consecutivo.
— É... eu sei. A minha mãe me contou.
— O problema é que usamos quase toda a água da quinta caixa na última plantação — disse ele. Pelo olhar, percebi que era algo sério.
— Mas ainda temos duas caixas…, não temos?
— Sim, por enquanto.
— Acho que pode piorar? — Indaguei.
— Eu não sei. O mundo de hoje não faz muito sentido… vai depender de como o tempo se comporta.
Andamos até chegar na sala principal. No centro, estava Dúlio, examinando algumas folhas e anotações sobre a mesa. Tinha cabelo claro, olhos verdes e um rosto franzido, que deixava transparecer sua preocupação.
— Finalmente — disse ele, assim que entramos.
— Como prometido, senhor — Marcelo respondeu, no seu humor de sempre.
— E você, Melina… atrasada como sempre.
— Me desculpe. O ônibus demorou, Sr. Dúlio.
— Deveria variar as suas desculpas, Melina. Elas já estão ficando automatizadas. — A voz dele foi dura, mas justa. Eu realmente estava culpando a pessoa errada.
— Então, Dúlio, o que temos para hoje? — Marcelo interveio, quebrando o gelo.
— Não são boas notícias. — O tom sério dele calou a sala.
— Isso tem a ver com a estação? — perguntei, chamando sua atenção.
— Tem tudo a ver. — Ele suspirou. — A estação não tem nos fornecido água suficiente. Gastamos duas caixas só nesta semana para manter o nível das plantações das outras áreas. Ao todo, já foram quatro caixas. E agora a quinta também esvaziou.
As “caixas”, como chamávamos, eram os tanques de armazenamento. Cada uma comportava até dez mil litros, e ao todo o centro possuía sete.
— Mas ainda podemos manter as plantações… não podemos? — Marcelo perguntou, sério.
— Do jeito que as coisas estão indo… não por muito tempo. — Dúlio respondeu de forma taxativa, sentando-se em sua cadeira.
— Não existe outra forma de compensar? — arrisquei, procurando alguma solução.
— Não. A única saída é sacrificar as próximas plantações e destinar o restante das caixas para a área 5.
— Mas se fizermos isso, não teremos comida no fim do ano — Marcelo questionou. Pela expressão dele, percebi que ainda não tinha entendido a gravidade da situação.
— Você não entendeu? — Dúlio olhou fixamente para ele e completou: — Não temos água suficiente. E sem água, não há plantações. A água do rio não pode ser usada sem tratamento. Tem noção do que isso significa? Não podemos sacrificar as fronteiras.
— Está me pedindo para sacrificar pessoas? — Marcelo indagou, só agora compreendendo a jogada de Dúlio. Ele queria cortar os suprimentos da cidade ao mínimo, para garantir que as fortalezas sobrevivessem.
— Calma… tem que haver outra solução — interrompi.
— E que outra solução temos? — Dúlio retrucou, sem demonstrar um pingo de confiança.
Em um impulso, soltei:
— Podemos plantar baka.
— Baka?
— Sim.
— Não estamos no inverno. Elas não vão crescer a tempo. — Disse Dúlio.
— Elas podem crescer… desde que o sol não interfira. — Argumentei. — Vocês viram o tempo. A cada dia o sol fica mais fraco. Além disso, baka não exige tanta água para germinar.
— Talvez ela tenha razão — Marcelo apoiou, mas o olhar de Dúlio ainda era desconfiado. Apesar de eu odiar ser uma hortaliça, entendia o suficiente de botânica para arriscar.
— Está certo. Vocês plantarão baka — decidiu Dúlio, ainda me encarando com frieza. Eu tinha certeza de que ele faria de tudo para ver minha ideia dando errado.
— Marcelo, leve todas as sementes para a área cinco. Prepare o terreno e plante o quanto antes. Pode usar o reservatório restante da quinta caixa como base das colunas.
— Sim, senhor — Marcelo respondeu, olhou para mim e seguiu para a saída.
Eu permaneci olhando para Dúlio. Ele descruzou os braços e se levantou da cadeira.
— Fique sabendo: se sua ideia der errado, vai colocar toda essa gente na miséria. Inclusive os cidadelas. — Seu tom era duro, carregado de preocupação. Nem eu mesma tinha plena fé do que havia proposto, mas era preciso tentar.
Não demorou para ele sair da sala. Respirei fundo e segui pelo corredor, rumo à minha área — ao menos, de cabeça erguida.
Minha vida nunca foi fácil em Braen, mas isso valia para todos. Sempre tivemos que fazer escolhas difíceis. Uma delas foi perder minha terra natal. Antes que me perguntem: eu nem sempre vivi aqui.
Nasci em uma aldeia ao norte de Braen. Minha mãe adotiva dizia que lá tínhamos paz, até que eles vieram. A floresta linda e harmoniosa se transformou no mais escuro dos pesadelos. E, no fim, minha mãe foi obrigada a me abandonar na cidade, para que alguém pudesse me dar a proteção e o carinho que ela já não conseguia. É tudo de que me lembro… ou, pelo menos, o que contaram para mim.
— Melina? Melina! — a voz soou na minha cabeça. Quando percebi, era Karita, colega de trabalho, parada na porta da área cinco.
— Oi? Perdi alguma coisa?
— Me diga você. Ficou aí, parada feito poste.
— Só estava... pensando… — respondi.
— Pelo visto, estava pensando no mundo da lua… se é que ainda temos lua — brincou Karita. Ela era a mais maluca do grupo da área cinco. Ao todo, éramos seis: eu, Marcelo e Igor cuidávamos do plantio; Karita, Milena e Jerson organizavam os dados e monitoravam as plantações.
— Cadê o restante do grupo? — perguntei, entrando na sala.
— Foram com Marcelo pegar o resto das sementes. Vamos plantar baka agora. Ou seja, vamos todos morrermos de fome com aquelas coisinhas gosmentas.
— Não seja tão dramática. Baka não é tão ruim assim.
— Vai me dizer que aquela coisa verde, grudenta, é saborosa? — retrucou. Ela tinha razão: o visual não era nada agradável. Mas o gosto… podia dizer que era aceitável.
— Você se acostuma — afirmei com um leve sorriso discreto.
Logo depois, Marcelo entrou carregando uma enorme caixa amarrada.
— Me ajuda com isso! — pediu. Fui direto ajudá-lo. A caixa era incrivelmente pesada, mas, com esforço, conseguimos colocá-la junto às demais no canto.
— Isso são…
— …Sementes — completou Marcelo. — Ainda restam mais duas caixas. Jerson e Igor ficaram de pegar o restante. Se tudo correr bem, ainda hoje começaremos o plantio.
— Acha que vai dar certo? — perguntei, ainda duvidando da minha própria ideia.
— Tem que dar certo — respondeu Marcelo, mas sua expressão só aumentou minha insegurança.
— O restante dos suprimentos só dá para mais dois meses — Karita quebrou a tensão. — Não teremos tempo de reabastecer a comunidade antes de enviar a demanda para as cidadelas.
— Hm... soluções? — Marcelo perguntou, voltando-se para mim, como se eu fosse apresentar uma saída mágica e impecável.
— Podemos aumentar o fluxo de água na primeira coluna de sementes — sugeri. — Isso pode acelerar a germinação.
— Não temos água suficiente. Se fizermos isso, podemos comprometer o restante do plantio — Marcelo rebateu. Ele sabia muito mais sobre as condições dos recursos do que eu.
— Aumentamos a água e ficamos sem o restante; mantemos o plantio e não colhemos a tempo. Alguém aqui já anotou que estamos completamente ferrados? — Karita disparou, no seu velho tom sarcástico.
Nós éramos os responsáveis por plantar toda a comida da fortaleza, sustentando a cidade e, teoricamente, as gerações futuras. Mas, nos tempos de hoje, mal sabíamos se haveria comida até o fim do trimestre — quem dirá para gerações futuras.
— Vamos manter o fluxo de água na primeira coluna — decidi, firme.
— Podemos ficar sem água para o restante… — Marcelo insistiu, mas eu já estava convicta.
— Como se tivéssemos outra opção. Mantemos assim, até que surja uma alternativa melhor. — Minha voz foi definitiva.
— Você é quem manda, Dra. Melindra Mayey — Marcelo sorriu de lado. Ele gostava do meu tom de liderança e, às vezes, me chamava de “doutora das hortaliças”, apesar de eu ser apenas a garota que planta. Uma simples botânica.
— Então temos que começar o quanto antes — disse Karita. — O tempo não é muito nosso amigo.
— Karita tem razão. Vem, Melindra, me ajuda a abrir essa caixa.
Segui até ele. Marcelo usou uma chave como apoio, enquanto eu puxava a tampa. Não demorou para a caixa se abrir. Dentro, havia milhares de sementes verde-claras de baka.
— Éca… — Karita foi a primeira a reagir, fazendo careta.
— É o suficiente — comentei, tentando ignorar o aspecto desagradável.
— Ótimo. Vamos separar em conjuntos de cinco sementes e plantar.
Assim que Marcelo pegou os equipamentos de plantio, Igor e Jerson entraram carregando outra caixa enorme.
— Caramba, que peso… — Igor bufou.
Marcelo correu para ajudar, apoiando a caixa por baixo até colocarem sobre um suporte de madeira.
— Quem foi o gênio que teve a péssima ideia de plantar baka? — Jerson resmungou.
— Eu — respondi sem hesitar. — Se tivermos sorte, será a única coisa que teremos no fim do trimestre.
— Sorte? Eu odeio baka. Ter só baka para comer não é sorte — Igor retrucou.
— Melindra tem razão. Temos que adiantar isso logo — Marcelo tomou a frente, já carregando os equipamentos para o fundo, onde ficava o solo da área cinco.
— Você acha mesmo que vão crescer a tempo? — Igor me perguntou, me deixando em silêncio.
— Têm que crescer — Karita interveio. — As zukas não germinam mais. É um caso perdido.
— Ah que ótimo, os tempos estão ficando cada vez mais difíceis. Não vai demorar muito até aqueles muros caírem e todos nós morrermos — Jerson resmungou. Ele era o mais pessimista do grupo. Já havia perdido a conta de quantas vezes repetira a mesma frase. Desde a morte dos pais nas fronteiras, perdera de vez as esperanças em um futuro melhor.
— Enquanto eles não caírem, nós sobrevivemos — rebateu Milena, chegando logo atrás. — Ainda falta trazer mais uma caixa. Quem se voluntaria?
Igor e Jerson se entreolharam. Pelo olhar dos dois, dava para perceber que ninguém estava disposto a carregar aquelas benditas caixas… mas elas não iriam chegar aqui sozinhas.
— Está bem… vamos — Jerson se rendeu, tomando a frente.
— Vou fazer os cálculos da semana — Igor disse, pegando as papeladas sobre a mesa e seguindo para a sala do fundo.
— Vou ajudar Marcelo — afirmei, também pegando alguns equipamentos de plantio. — Vem comigo, Karita?
— Vai, eu já estou indo.
Segui até o fundo. Marcelo já estava lá, debruçado sobre a terra, trabalhando com vigor.
— Já? Tão apressado assim? — perguntei.
— Temos que plantar o mais rápido possível. Não temos tempo. A cidade não tem tempo.
Peguei uma ferramenta e me juntei a ele. O solo estava árido e seco, como o leito de um lago morto.
— Acha que isso vai dar certo? — questionei.
— Se dependermos da baka, é bem provável que dê.
— Mas não dependemos só delas… — retruquei, mesmo sabendo que aquilo o incomodava.
— A água tem sido cada vez mais escassa. Mal sobra energia para hidratar o rio. Se continuarmos assim, isso aqui não vai durar muito.
Ele tinha razão. Desde que o clima mudou, o sol aparecia cada vez menos. Os painéis solares recebiam pouca energia. Não tínhamos outra fonte, e a cada ano restavam menos matérias-primas para qualquer alternativa. Mas a questão era: o que podíamos fazer?
— Já pensou em mandar uma carta para os cidadelas?
— Já conversei com Dúlio — respondeu Marcelo. — Por que acha que ele anda tão irritado?
— O que ele disse?
— Que eles estão cientes.
— Tem que haver outra forma, tem que haver outro jeito… — insisti, fincando o solo com força.
— Não tem, Melindra. Vivemos bem dentro da fortaleza, mas os recursos são limitados. Se não sairmos para procurar novos, todos vamos morrer aqui dentro.
Por mais que eu buscasse soluções, tive que concordar com Marcelo. Os recursos estavam cada vez mais escassos. Ano após ano, víamos nosso futuro se estreitar. Mas esse nem era o maior problema. O verdadeiro problema estava lá fora, além dos muros que nos cercavam.
— Vocês já começaram? — Karita perguntou, surgindo no fundo com seus equipamentos nas mãos. — Isso é que é vontade de plantar.
— Junte-se a nós — respondi com um leve sorriso.
E assim fomos nós três — eu, Marcelo e Karita. Juntos, furamos o solo e começamos o plantio. Pelo menos, demos início.
O dia de hoje ainda prometia muito.